14/01/2026 09:47

A covardia é o nosso esporte

Foto: Reprodução/ESPN

A censura no jornalismo interessa a dois tipos de agentes, os ditadores, que buscam evitar questionamentos sobre suas decisões autoritárias, e os gângsteres, que precisam ocultar a existência de um Estado paralelo. No jornalismo esportivo, a lógica não é diferente. 

Na última segunda-feira, 7 de abril, o programa Linha de Passe, da ESPN, teve seus integrantes – Dimas Coppede, Gian Oddi, Paulo Calçade, Pedro Ivo Almeida, Victor Birner e William Tavares – afastados temporariamente após repercutirem a reportagem “Coisas Extravagantes”, da revista Piauí, que expõe os desmandos de Ednaldo Rodrigues, (des)presidente da CBF. 

Vivemos em uma era de excesso de informação, onde o factual suplantou o contemplativo. A este tempo, o filósofo Franco Bifo Berardi chama de infosfera. Notícias líquidas e morte da reflexão. O jornalismo, em sua maioria, não reverbera notícias com profundidade; apenas as repete em uma sequência infindável, sem questionar, sem conectar pontos. Quando uma reportagem bem construída como “Coisas Extravagantes” surge, seu impacto é inevitável, mas a superprodução de conteúdo acaba engolindo seu tempo de repercussão. Quando a resistência tenta emergir, vira apenas um burburinho passageiro. 

Onde foi parar a autonomia editorial? Como destacou Gean Oddi ao longo da semana, denunciar é premissa do jornalismo. Se isso é verdade, onde está a autonomia editorial dos veículos? A liberdade de cátedra, defendida por professores, deveria ser um direito também dos jornalistas. Isso levanta outra questão: devemos exigir formação acadêmica e ética dos profissionais da imprensa, ou continuaremos aceitando falatórios irresponsáveis? Sobre esse tema, discutimos no Episódio 55 do podcast Tecendo Ideias (disponível no Spotify). 

A ESPN, que já foi símbolo de jornalismo crítico abraça de vez o entretenimento covarde. A liberdade jornalística não deveria ser refém de patrocinadores ou interesses escusos. Se a ESPN já foi sinônimo de postura crítica, o episódio recente desconstrói essa imagem. Quando o entretenimento supera a informação, perdem o veículo, perde o espectador – e ganham os imorais que comandam instituições corruptas. No silêncio, impérios são construídos e valores, transfigurados. 

Esta coluna não discute o mérito da denúncia – jamais defenderia a CBF ou os caciques que estrangulam o futebol brasileiro. Mas sente a dor da censura e luta pela liberdade de cátedra e de expressão. Para encerrar, recupero uma frase de Felipe Lobo (do newsletter podcast Meio Campo), “Da CBF eu espero isso. Da ESPN e de qualquer veículo, eu espero mais!” A atitude do canal assemelha-se à de um rato: covarde, ao afastar seus jornalistas e questionar a linha editorial do Linha de Passe. Diante de denúncias graves como as da Piauí, não é hora de gritaria sobre placares, mas de investigar, debater e expor a podridão. O que vemos, porém, é outra postura.  

ESPN deveria usar um novo slogan, “a covardia é o nosso esporte.” 

Textos citados 

Sobre o autor: 

Prof. Dr. Albio Fabian Melchioretto (www.albiofabian.com). Doutor em Desenvolvimento Regional. Professor pesquisador ligado a Faculdade SENAC Blumenau, editor do podcast, Tecendo Ideias.  





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