A oitava temporada de Drive To Survive, a série que noveliza os bastidores da Fórmula 1, chegou à Netflix e está… Decepcionante. Ainda mais por retratar o 2025 da categoria, que trouxe narrativas e reviravoltas riquíssimas na vida real, se consolidando como uma das temporadas mais emocionantes e imprevisíveis dos últimos tempos. Esse ano espetacular, que poderia ser um grande auxílio para a equipe de roteiristas e diretores, acabou sendo uma faca de dois gumes, porque esbarrou nas limitações da própria série.
Antes de mais nada, é preciso deixar claro que a série não é um documentário. Apesar de ter acesso a entrevistas exclusivas e clipes de corridas reais, o fio condutor é escrito por um time de pessoas que trata gente real como personagens, impondo suas narrativas e criando heróis e vilões para deixar a série – e até mesmo a categoria esportiva – mais vendável. E nas últimas temporadas, a série tinha seu “vilão perfeito”: Christian Horner, o chefe de equipe da Red Bull Racing, que enfileirou títulos desde o começo da série. Porém, nos últimos dois anos, a situação ficou insustentável. Em meio a denúncias de assédio e o clima ruim com o principal piloto da escuderia, Max Verstappen, Horner foi demitido no meio da temporada. Um baque terrível para os roteiristas, que perderam seu principal antagonista e não souberam mais o que fazer. É engraçado ver como a série parece ser uma enquanto ele segue no cargo, e outra, meio sem rumo, após sua saída dos holofotes.
Mas a verdade é que a temporada passada, por si só, já tinha narrativas o suficiente para sustentar uns 15 episódios, caso não se limitasse ao “formato” Drive To Survive, que tem esse histórico de “passar pano” para as equipes britânicas e servir como parque de diversões de uma certa equipe cujo CEO é tão estrela quanto os pilotos. Quem assistiu a temporada 2025 da F1 pode puxar na memória que logo vai lembrar dos principais pontos que alimentaram as manchetes: Lewis Hamilton na Ferrari; a quantidade absurda de rookies no grid; a polêmica troca de Liam Lawson por Yuki Tsunoda na Red Bull logo no início do ano; a superação de Max Verstappen em meio a um turbilhão de controvérsias e sua caça aos líderes da McLaren; o primeiro pódio da carreira do experiente Nico Hülkenberg; E, claro, a grande polêmica do ano: a disputa interna entre Lando Norris e Oscar Piastri, pilotos da McLaren que disputaram o campeonato até surgirem rumores de favorecimento da equipe a um dos pilotos, rendendo uma série de episódios controversos nas pistas que quase puseram a temporada da equipe a perder.
Alguns pontos foram bem abordados pela série, principalmente no que diz respeito à chegada dos rookies. A troca de Lawson por Tsunoda também foi interessante, porque conseguiu mostrar a frustração de ambos os pilotos e contextualizou com as polêmicas que culminaram na saída de Horner da Red Bull, paralelamente aos rumores de uma possível transferência de Verstappen para a Mercedes, que não se consolidou, mas seguiu como uma grande ameaça à escuderia.
No entanto, o mais interessante nessa abordagem dos rookies foi o paralelo entre a Alpine e a Sauber. E isso diz muito sobre a construção do próximo vilão da série, que está mais do que desenhado para ser o polêmico Flavio Briatore, conselheiro executivo da Alpine. O empresário, que chegou a ser banido do esporte por manipulação de resultado, retornou à categoria em 2024 e vem demonstrando seu infame comportamento arrogante e narcisista. Nesta temporada, o contraste do tratamento dado por ele ao piloto argentino Franco Colapinto – que muitas empresas considerariam assédio moral – e o tratamento que o chefe de equipe da Sauber, Jonathan Wheatley, deu ao brasileiro Gabriel Bortoleto, de acolhimento e compreensão, é impressionante.

Quem se destaca, merecidamente, dentre os rookies é Kimi Antonelli. O piloto de 18 anos foi escolhido pela Mercedes para ocupar a vaga deixada por Lewis Hamilton após a transferência para a Ferrari. Em cenas que parecem ter saído diretamente de Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2016), a série faz questão de lembrar que Kimi é apenas um garoto, que sequer tinha carteira de motorista e já estava pilotando um foguete na principal categoria automobilística do planeta. A forma como eles abordam os impactos psicológicos dessa pressão no menino é muito bacana, é um processo de humanização muito bem feito a uma das maiores promessas do grid.
Por outro lado, Ollie Bearman, da Haas, que também teve uma boa temporada, foi completamente esquecido no rolé. Para nós, brasileiros, talvez o ponto mais frustrante dessa temporada seja a falta de uma narrativa para Gabriel Bortoleto. O brasileiro viveu um drama pesado em seu primeiro GP de São Paulo, ainda mais dramático do que o de Tsunoda em Suzuka, e sequer foi mencionado. Da mesma forma, a grande glória de seu companheiro de equipe – o primeiro pódio na carreira – foi mostrado, mas sem grandes emoções. O episódio foi um dos grandes momentos da temporada passada, porque foi tão inesperado que a equipe sequer tinha champanhe para celebrar o resultado, e a acabaram ganhando garrafas de presente da Aston Martin e da Mercedes, num gesto muito legal de fair play.

Só que um dos pontos que mais quebrou a temporada foi não contar com as participações de Lewis Hamilton e Max Verstappen. Eles não quiseram dar entrevistas, fazendo com que a equipe do documentário tivesse que se virar para retratar alguns pontos da temporada por meio de coletivas, rádios e materiais promocionais de suas escuderias, como ações sociais e publicitárias. Mas é realmente complicado contar a história da temporada 2025 sem falar da ida catastrófica de Hamilton para a Ferrari, que viu seu sonho se transformar em pesadelo ao encontrar um carro sem a menor condição de disputa e uma equipe de métodos de trabalho completamente distintos daqueles que o heptacampeão se acostumou na Mercedes, o que rendeu uma série de embates e rumores de indisposições nos bastidores. Parte disso até chega a ser mencionado, sem nunca ser desenvolvido na série. É uma pena, porque foi um dos grandes arcos narrativos.
Já Verstappen foi o grande protagonista da última edição, sendo definido pelo CEO da McLaren Racing, Zak Brown, como “aqueles caras dos filmes de terror”, porque, segundo Zak, “ele continua voltando”. A temporada de Max, visto por muitos com antipatia por seu compromisso com a vitória, foi de redenção junto ao público. Seu início foi caótico, com erros infantis que demonstraram sua insatisfação com a equipe, mas após o nascimento de sua bebê, ele passou a levar a situação com “outros olhos”, se tornando um tipo de “paizão” para os rookies, acolhendo e dando conselhos, algo que não fizeram com ele em sua ascensão à F1 com apenas 17 anos. Mais do que isso, ele quase protagonizou uma das maiores viradas da história, após ver Lando Norris, da McLaren, abrir mais de 100 pontos de vantagem, e ainda assim conseguir resultados e vitórias que levaram a disputa do campeonato a ser decidida apenas na última rodada, com a consagração de Norris acontecendo sobre Verstappen por somente 2 pontos de vantagem. Foi absurdo.
E meio às controvérsias da McLaren, Verstappen viveu momentos em que foi o “escolhido” do público para tentar impedir a vitória da equipe papaia, o que rendeu cenas impensáveis, como no GP de Monza, na Itália, casa da Ferrari, em que os Tifosi entoaram a música tema de Max, após o piloto da Red Bull “impedir” os pilotos da McLaren, grande rival da Ferrari, de subir ao lugar mais alto do pódio. Isso sequer é mencionado, o que é um desperdício. Até por conta dessa vilanização besta que a série tenta impor ao piloto, um arco de redenção poderia ser muito bem trabalhado, só que fica de lado em meio a essa pobreza narrativa escolhida.

Por fim, mesmo com esse “apagamento” de dois dos quatro protagonistas de 2025, por incrível que pareça, talvez ninguém tenha sido mais injustiçado nessa temporada do que os dois pilotos da McLaren. Lando Norris e Oscar Piastri protagonizaram alguns dos capítulos mais bizarros da temporada em sua busca pelo título. A estratégia da escuderia de ter dois pilotos “número 1” rendeu episódios do mais puro desconforto, como no GP da Itália, em que Piastri superou Lando na pista, mas recebeu ordens da equipe para ceder a posição para o companheiro terminar em segundo. O problema dessa situação é que Piastri estava vivíssimo na disputa pelo título, o que rendeu o maior bafafá da temporada passada, com as constantes acusações de favorecimento da equipe a Lando Norris e uma queda drástica de confiança em Oscar Piastri.
Por falar no Piastri, seu arco narrativo, que terminou de forma amarga, praticamente não foi abordado nesta temporada da série. O máximo que aconteceu foi uma passada de pano chinfrim em meio a um depoimento do ex-piloto Nico Rosberg. Quanto a Lando Norris, o campeão mundial de 2025, a série foi ainda mais negligente. A temporada 2025 foi sua maior glória profissional, mas seus dramas, desafios e até mesmo uma justa superação na reta final, em meio à queda de desempenho de Piastri, foram deixados de lado. Quem assistir à sétima temporada de Drive To Survive vai entender muito mais da mente de Lando Norris do que na oitava temporada, em que ele supostamente seria o protagonista. O rapaz viveu uma das maiores pressões possíveis, estando em disputa com seu companheiro de equipe e vendo o “desalmado” Max Verstappen, seu grande rival do último ano, ganhando ares de anti-herói e ainda assim o máximo que a temporada dedica a entender do que se passava na cabeça dele foi a pressão que ele sentiu por comparecer à première de F1: O Filme contra sua vontade. Um desperdício completo. Por ser o ano de glória do rapaz, Lando Norris merecia mais do que isso.

E no meio disso tudo tinha o George Russell, figuraça da Mercedes. Não tem jeito, o cara rouba a cena em todas as suas participações na série, parece uma criança atentada no meio dos pilotos. É diversão garantida com suas alfinetadas aos companheiros de grid e bons desempenhos nas pistas.
Enfim, todo mundo sabe que Drive To Survive é uma excelente porta de entrada para quem quer assistir – ou voltar a acompanhar – a Fórmula 1. A série dá uma contextualizada boa do que está acontecendo, mesmo que construa seus heróis e vilões em meio a um ambiente real. Ainda assim, tendo isso em mente, ver o histórico ano de 2025 ser resumido em uma temporada tão tendenciosa e pobre de narrativas é decepcionante, no mínimo. Uma pena.

A 8ª temporada de Drive To Survive está disponível na Netflix.
