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Chloé Zhao e Jessie Buckley discutem a dor em Hamnet e o papel central da montagem do brasileiro Affonso Gonçalves (Entrevista EXCLUSIVA)

É fácil adaptar um livro ruim. É difícil adaptar um bom livro. Mas adaptar um grande livro é extremamente difícil — e Hamnet é um grande livro.” Foi com essa afirmação direta que a cineasta Chloé Zhao explica o delicado processo de transposição do romance de Maggie O’Farrell para o cinema, em uma entrevista exclusiva para o CinePOP, antes da cerimônia do Globo de Ouro, que consagraria Hamnet como Melhor Filme de Drama e Jessie Buckley como Melhor Atriz Dramática.

Com lançamento antecipado no Brasil, em 15 de janeiro, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet desponta como um dos títulos mais fortes da temporada, cotado para múltiplas indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado, Fotografia, Atriz, Ator coadjuvante para Paul Mescal e, possivelmente, Montagem — para o editor brasileiro Affonso Gonçalves, responsável por Ainda Estou Aqui e pelo vencedor do Leão de Ouro em Veneza no ano passado, Pai Mãe Irmã Irmão, de Jim Jarmusch.

Leticia Alassë conversa com Chloé Zhao e Jessie Buckley (Foto: reprodução)

Baseado no romance que reimagina a vida de Agnes, esposa de William Shakespeare, após a morte do filho Hamnet, o filme opta por um caminho próprio, afastando-se deliberadamente da estrutura do livro. A escolha não é estética apenas: é emocional. “Desde o início, eu sabia que precisávamos destilar a obra”, explicou Zhao. Trabalhei muito de perto com Maggie, entendendo que o livro era como uma ampulheta. Nós comprimimos tudo até um ponto mínimo e, então, deixamos que a vida, o processo do filme, a montagem e as inspirações diárias fizessem essa ampulheta se expandir novamente.”

Essa metáfora da ampulheta se reflete diretamente na forma do filme, que abandona explicações literais para encontrar um fluxo sensorial, guiado pelo ritmo, pelo silêncio e pela respiração das imagens. Nesse processo, a montagem se torna o coração do filme e é aí que entra o trabalho fundamental do editor brasileiro Affonso Gonçalves, aliás, “Fonzi” para a diretora sino-americana.

Affonso Gonçalves, montador brasileiro de Hamnet (Foto: divulgação)

Trata-se de um nome que pode, inclusive, representar o Brasil nesta temporada de premiações. “Eu sempre faço o primeiro corte dos meus filmes, quase como uma reescrita”, contou Zhao.  Quando termino, já sou outra pessoa. Então pedi ao Fonzi que não assistisse às diárias, para que visse o filme fresco. Ele foi a primeira pessoa no mundo a assistir ao primeiro corte. Depois disso, começamos um diálogo constante, quebrando e reconstruindo cenas.”

A diretora resume a parceria com precisão quase física: “Edição é ritmo. Oitenta por cento é ritmo. Eu conheço o trabalho do Fonzi profundamente e sinto que temos o mesmo batimento cardíaco. Quando isso já está em sintonia, tudo o resto é mergulhar cada vez mais fundo.”

Essa pulsação interna — acompanhada, claro, da trilha sonora impactante de Max Richter — é o que conduz a performance devastadora de Jessie Buckley, que entrega uma Agnes atravessada por dor, força e uma presença quase mística. Ao falar sobre a composição de vulnerabilidade e resistência em algumas cenas emblemáticas — especialmente a última —, a atriz foi econômica, quase evasiva, mas também reveladora: “A Chloé só me disse: ‘eu te protejo’. Eu confiei nela. Entrei na cena, senti o que veio e entreguei aquilo para ela. Depois pensei: agora é com você.

O resultado é um filme que não apenas emociona, mas exige entrega do espectador. Nas exibições para a imprensa, lenços foram distribuídos — e usados. Hamnet não busca lágrimas fáceis, mas constrói uma dor árdua, paciente, que se infiltra aos poucos e permanece com a noção de entrega e perpetuidade de nossos laços afetivos por meio das formas de arte. 

Mais do que uma releitura da história de Shakespeare, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet escolhe olhar para quem ficou à margem da História. Agnes poderia ser apenas a mulher abandonada enquanto o marido se tornava o escritor mais famoso de todos os tempos. Chloé Zhao, entretanto, transforma essa narrativa em algo radicalmente humano: um retrato sobre renúncia, amor e a capacidade de abrir mão de si para elevar os outros.

Esse olhar está profundamente conectado à própria filmografia da diretora, como Songs My Brothers Taught Me (2015), Domando o Destino (2017) e Nomadland (2020)  —  pelo qual tornou-se a terceira mulher na história da Academia a ganhar um Oscar de Melhor Direção  —, que constantemente desloca o centro da narrativa para aqueles considerados mais frágeis, não como vítimas, mas como forças silenciosas que moldam o mundo.

Veja a entrevista completa:

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Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.



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